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Samba da terra de Dorival
Exposição “Caymmi 100 anos” celebra o compositor que poetizava as canções
Gabriela Soutello
Um retrato de Dorival Caymmi dentro da música popular brasileira. É sobre o músico e poeta baiano – “A Bahia tem um jeito / Que nenhuma terra tem” – cujo centenário foi demarcado no último dia 30 de abril, que trata a exposição Caymmi 100 anos, dividindo a presença do compositor no universo musical em quatro partes: “Linha do Tempo”, destacando-se os principais acontecimentos e realizações durante seus 94 anos, “Música”, com composições e voz ao longo de sua trajetória, “Vida Familiar”, onde há destaque para a pintura que Dorival fazia em casa e “Rádio”, veículo que teve importante presença na divulgação e popularização de suas canções e de onde vem, inclusive, a maioria de seus amigos.
Os cinco sentidos do corpo humano estarão presentes na mostra-instalação, que estreia amanhã (19/7) no Centro Cultural Correios, em São Paulo: Fotos e pinturas instigam a visão enquanto as músicas, com enfoque nos tempos de rádio, acompanham a audição. Para o tato, a possibilidade de tocar todos os objetos. Para o olfato e o paladar, fica a brincadeira de sentir os cheiros e gostos, como afirma o idealizador e produtor da exposição, Marcelo Aouila, na própria poesia de Caymmi: “Você sente o cheiro do mar quando ele fala do pescador quando vai buscar o peixe e o gosto do vatapá quando ele aborda a cultura da Bahia”.
Descendente de italianos, africanos e portugueses, nascido em Salvador, influenciado pela música negra e aprendiz autônomo de violão, Caymmi compunha principalmente sobre o os pescadores que trabalhavam e morriam no mar, sobre a espera da volta das jangadas, sobre Yemanjá e o Candomblé, – o músico era filho de Xangô – sobre as moças, o calor e a brisa da Bahia. E compunha, ainda, de maneira lenta e espaçada, fazendo “música aos pedacinhos”, como costumava dizer, alheio ao comércio e à obrigação, refletindo a experiência nos versos expostos em seu primeiro momento musical: o do samba brejeiro. “Sacudido e dançante”, como afirma Marcelo, era através desse formato musical que Caymmi lembrava sua infância e homenageava a terra natal. Nesse estilo destacam-se, por exemplo, as músicas O que é que a baiana tem (1938), encenada no final dos anos 1930 por Carmem Miranda no filme Banana da Terra, O samba da minha terra(1940), posteriormente gravado pelo grupo Os Novos Baianos, A vizinha do lado (1946), mexendo cadeiras e juízos e Você já foi à Bahia?(1941).
Já a outra vertente adotada por Caymmi, segundo Marcelo, é a que aborda a parte urbana do Rio de janeiro – para onde o poeta se mudou aos 23 anos – além das relações e dos comportamentos humanos. São esses os samba-canções, mais lentos e intimistas, como os clássicos Marina (1947), Não tem solução (1952) e Só louco (1956). “Caymmi foi um revelador da Bahia, do norte e do nordeste para todo o Brasil, trazendo para as rádios a música regional que fazia lá”, explica Marcelo. Para o idealizador da mostra, Caymmi não tem um sucessor específico, mas deixou um legado que não só inovou a música popular brasileira como chegou a ser reconhecido em âmbito internacional – devido principalmente a suas participações em filmes que levavam características do folclore brasileiro – as comidas típicas, o balagandã, as histórias para além do eixo Rio-São Paulo – para o exterior.
Na exposição, Marcelo garante que tudo será lembrado. Foi sob a orientação da neta de Caymmi, Stella Caymmi, curadora da mostra, que o idealizador conseguiu organizar “de maneira leve e simples, como são as obras de Dorival Caymmi”, trechos que refletem a importância artística do compositor, limitados somente pelo espaço concedido à mostra. Para que haja interação direta do público, Caymmi 100 anos proporcionará ao público a possibilidade de cantar em um karaokê somente com canções do poeta. A abertura da mostra contará com a presença de Stella, que deverá conversar com o público sobre as histórias e canções do avô, tema de seu mestrado, publicado, e inspiração para outros dois livros.
O autor de Maracangalha (1956), João Valentão (1953), Saudade de Itapoã (1948) e O mar(1941) influenciou a música de João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de ter impressionado outros como Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Jorge Amado – que escreveu, em 1976, que “não há uma única frase sua que seja circunstancial”. Em Caymmi 100 anos, a ideia de Marcelo Aouila e Stella Caymmi consiste em mostrar os tantos lugares e tempos do compositor, as muitas pinturas e poesias que acompanharam sua história, divulgando a arte do baiano que escrevia, sobretudo, sobre o mar, o fenômeno que, junto com Yemanjá, lhe fazia “morrer de medo e vontade”.
Exposição Caymmi 100 anosOnde: Centro Cultural Correios São Paulo – Avenida São João, s/nº – Vale do Anhangabaú
Quando: Até 16/9, de terça a domingo, das 11h às 17h
Quanto: gratuito
Info: (11) 3227-9461
Quando: Até 16/9, de terça a domingo, das 11h às 17h
Quanto: gratuito
Info: (11) 3227-9461
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